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MEGO: Quem lucra quando desistimos de entender

Você conhece a cena. Um contrato de 47 páginas chega para aprovação, com anexos de A a F e cláusulas que referenciam outras cláusulas. Ou um deck de 40 slides onde a única informação que importa - o projeto vai atrasar - está enterrada no slide 31, atrás de três gráficos de “sinergia”. Começamos a ler com boa intenção. No terceiro parágrafo, os olhos vitrificam. Rolamos até o fim, assinamos, aprovamos, seguimos o dia.

Esse fenômeno tem nome: MEGO - my eyes glaze over. E dar nome às coisas é o primeiro passo para domá-las (name it to tame it). Mas quero ir além do nome. Quero olhar para o que esse gesto banal - desistir de entender e fingir que entendemos - diz sobre quem lucra com ele. E, mais desconfortável: sobre o quanto nós consentimos.

Cada vitrificação é uma pequena rendição. Sozinha, não significa nada. Acumuladas, viram um hábito: o hábito de entregar nosso entendimento a quem escreveu o documento, conduziu a reunião, montou o gráfico. E entendimento entregue é poder entregue.

Disponível não é acessível

O mecanismo central do MEGO é este: a informação está formalmente disponível, mas inacessível na prática. Ninguém escondeu nada. O contrato está aí, a política interna está na wiki, a ata foi enviada para todos. Se algo der errado depois, a resposta será a clássica: “estava tudo no documento”.

E estava mesmo. Esse é o ponto.

Os números desse arranjo são conhecidos há quase duas décadas. McDonald e Cranor calcularam, no estudo The Cost of Reading Privacy Policies (2008), que um consumidor médio precisaria de cerca de 244 horas por ano para ler integralmente as políticas de privacidade dos sites que visita. Mais de seis semanas de trabalho em tempo integral. O sistema inteiro opera sob a premissa de que ninguém vai ler.

Aqui entra a parte que o meu ceticismo não me deixa ignorar: esse sistema não se sustenta só pela má-fé de quem escreve. Ele se sustenta por um pacto tácito. Quem redige o documento ilegível não quer ser lido - quer estar coberto. E quem clica em “li e aceito” também não quer ler - quer seguir em frente sem o peso de ter lido. Os dois lados saem da transação aliviados. A verdade fica órfã.

Complexidade real ou produzida?

Nem toda névoa é fabricada. Algumas discussões são genuinamente complexas: arquitetura de sistemas distribuídos, política fiscal, regulamentação técnica. Não há como simplificar sem perder substância. Mas outras são tornadas opacas - por preguiça, por burocracia ou por estratégia. Como distinguir? Proponho um teste prático:

Complexidade genuína resiste à simplificação. Opacidade produzida resiste a perguntas.

Peça a um especialista honesto que explique um tema difícil em uma frase, e ele vai conseguir - perdendo nuances, avisando das perdas, mas vai conseguir. Faça a mesma pergunta sobre um documento deliberadamente opaco e o retorno é outra camada de jargão, um “depende”, um convite para “alinhar offline”. A complexidade real tem fundo. A opacidade produzida tem apenas superfície, empilhada.

Há ainda uma terceira possibilidade, que é a mais incômoda de admitir: às vezes a névoa é nossa, fabricada por nós, para nós mesmos. Decidimos não entender o detalhe do bônus, da meta, do layoff anunciado em corporatês - porque entender exigiria uma opinião, e opinião exige posição, e posição tem custo.

Quem lucra com a nossa névoa

Quando alguém se beneficia da nossa desistência de entender, a conversa deixa de ser sobre comunicação e passa a ser sobre poder. Os exemplos do cotidiano corporativo são abundantes: contratos de fornecedor com estruturas de preço que exigem planilha própria para decifrar (a confusão não é acidente - é margem); dashboards com trinta indicadores que não respondem à única pergunta que importa; reorgs anunciadas como “otimização de estrutura para acelerar sinergias”, texto calibrado para que a palavra demissão demore a se formar na cabeça de quem lê; o consultor cujo jargão garante a própria indispensabilidade.

Nem tudo isso é deliberado, e essa é a parte traiçoeira. Boa parte da opacidade simplesmente emerge - o documento que cresceu por dez anos de revisões, o processo que acumulou aprovadores como casca de ferrugem. Ninguém planejou a confusão. Mas opacidade emergente ainda beneficia alguém: ela protege o status quo, porque questionar um processo incompreensível custa mais energia do que conviver com ele. A inércia tem dono, mesmo sem assinatura.

E antes de apontar o dedo, o espelho. Eu já produzi névoa. Você provavelmente também. O relatório escrito para impressionar em vez de informar. O termo técnico usado em reunião não porque era necessário, mas porque sinalizava pertencimento - e, de quebra, desencorajava perguntas. Sempre que a nossa segurança profissional se apoia no que os outros não entendem, somos parte do problema que este ensaio descreve.

O conforto de não entender

Seria fácil encerrar a análise na malícia alheia e na fadiga inocente. Nosso cérebro tem limites reais: depois de um dia com seis reuniões, não sobra energia para destrinchar um contrato. A sensação de que “entender não muda nada” - uma forma de learned helplessness corporativo - completa o quadro. Tudo isso é verdade, e tudo isso é só metade da história.

A outra metade é que não entender é confortável. Quem não entende não precisa discordar. Não precisa levantar a mão na reunião e atrasar a pauta. Não precisa carregar o peso de ter visto o problema e ficado em silêncio. O não-entendimento funciona como um álibi moral: assinamos, mas não sabíamos; aprovamos, mas estava confuso; seguimos, porque todo mundo seguiu.

O MEGO, nesses momentos, deixa de ser fadiga e vira anestesia voluntária. E quem produz documentos de 47 páginas sabe disso. A opacidade estratégica não explora apenas o nosso cansaço - explora a nossa vontade secreta de não sermos responsáveis pelo que entendemos.

Quando quem vitrifica é quem decide

Há uma versão desse conforto que custa mais caro que todas as outras: a do líder que participa da discussão sem entender o suficiente - e decide assim mesmo. Quando um analista vitrifica, a organização perde um par de olhos. Quando quem decide vitrifica, a decisão inteira passa a ser tomada sobre informação não digerida. Com um agravante: no topo, admitir “não entendi” parece custar caro demais. Entra em cena a performance - o aceno de cabeça, o jargão repetido de volta, a postura de quem “tem visão do panorama”. O panorama, na prática, é a vista de quem nunca desceu do mirante.

A mecânica é reconhecível. Diante da complexidade, a aversão - ou a preguiça, que costuma ser a mesma coisa com crachá diferente - substitui o entendimento por heurísticas rasas: a analogia com o projeto de dois anos atrás, a intuição de corredor, o “isso é simples, é só fazer X”. E quando o especialista aponta o risco, ele vira o “detalhista”, o “pessimista”, o que “complica”. Repare no que aconteceu aí: não faltou informação. O alerta foi dado, na sala, com dados. O que houve foi recusa ativa de processá-lo - porque processá-lo desmontaria a impressão rasa sobre a qual a decisão, secretamente, já estava tomada.

Eu já penei nessa sala. Mais de uma vez. Vi especialistas explicarem com paciência onde o plano ia quebrar, e a liderança seguir adiante com a confiança de quem entendeu o suficiente - e meses depois a realidade cobrar exatamente o que tinha sido apontado. O detalhe que o meu ceticismo não me deixa esquecer: a fatura raramente chega a quem decidiu. Quem paga é o time - no replanejamento, nas madrugadas, na credibilidade corroída. Decidir sem entender só é confortável porque as consequências moram em outro endereço.

É tentador tratar esse líder como vilão exótico. Não é. Ele é o nosso MEGO de crachá - a mesma aversão à complexidade que perdoamos em nós mesmos, multiplicada pelo alcance do cargo. E o efeito mais corrosivo nem é a decisão ruim; é a cascata. O time aprende rápido que clareza é indesejada, porque clareza expõe quem não entende. Então passa a produzir agrado em vez de informação. O ciclo do pacto tácito se fecha em escala: o chefe finge que entendeu, o time finge que explicou.

Três atos de resistência

O antídoto não exige heroísmo nem mais horas de leitura. Exige abrir mão do conforto. Três atos, em escala crescente de coragem:

  1. Fazer a pergunta “burra”. “Não entendi. Pode explicar como se eu fosse novo no time?” Quem produz opacidade conta com o nosso medo de parecer leigo - a pergunta simples desarma esse mecanismo na hora. Já vi uma única pergunta dessas destravar mais valor numa reunião do que horas de análise silenciosa. Não é técnica de facilitação; é recusa a fingir. E ela vale em dobro para quem tem cargo: um líder que admite “não entendi” dá ao time inteiro a licença de parar de fingir.
  2. Exigir a versão de uma frase. Toda proposta, contrato ou anúncio deve sobreviver ao teste: “resuma em uma frase o que muda e quem é afetado”. Quem não consegue, ou não entendeu o que escreveu, ou entendeu bem demais. Nos dois casos, a recusa em simplificar é informação.
  3. Não produzir névoa. O ato mais difícil, porque cobra de nós. Escrever a política que qualquer pessoa lê em dois minutos. Dar a notícia ruim em linguagem que não precisa de tradução. Aceitar que ser entendido nos deixa expostos a discordância - e que essa exposição é o preço da integridade intelectual.

A névoa não é neutra

O MEGO se disfarça de problema de atenção, como se a falha fosse de quem lê. Este ensaio defende outra coisa: nos contextos que importam, a vitrificação dos nossos olhos costuma ter sido precificada por alguém - e tolerada por nós. A complexidade genuína merece esforço. A opacidade produzida merece perguntas. E a nossa própria névoa merece, no mínimo, honestidade.

Há uma camada inteira desse fenômeno que ficou de fora daqui: o MEGO cívico - cidadãos que deveriam engajar com políticas públicas e orçamentos, mas desistem diante de textos que parecem escritos para não serem lidos. As consequências disso para uma democracia merecem um ensaio próprio, e ele virá.

Por ora, fica o exercício. Na próxima vez que os olhos vitrificarem diante de algo importante, não role até o fim. Pare e faça as duas perguntas, nesta ordem: “quem ganha se eu não entender isso?” - e a mais difícil: “o que eu ganho fingindo que não entendi?”